Présentation du blog / Presentazione del blog

« Questo blog nasce da una grande passione per la poesia e per i poeti di lingua portoghese. Qui troverete poesie e prose poetiche seguite dalla traduzione in italiano e francese ».

« Este blogue brota de uma grande paixão pela poesia e pelos poetas da língua portuguesa. Aqui vocês encontrarão poemas e prosas poéticas, acompanhados da sua tradução em italiano e francês ».

« Ce blog est nait d'une grande passion pour la poésie et les poètes de langue portugaise et a pour vocation de vous les faire découvrir. Vous trouverez ici les poèmes, en vers ou en prose, de poètes de tous horizons, accompagnés de leur traduction en italien et en français ».


 ACTUALITÉS DU BLOG / NOTIZIE SUL BLOG



Também já fui brasileiro...


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Alguma poesia (1930) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Também já fui brasileiro...
Anch’io un tempo ero brasiliano...


Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Anch’io un tempo ero brasiliano
bruno come voi.
Ho pizzicato una chitarra, guidato una ford
e al tavolino dei bar ho imparato
che il nazionalismo è una virtù.
Ma c’è un’ora in cui si chiudono i bar
e tutte le virtù si ripudiano.
 
Anch’io un tempo ero poeta.
Bastava che guardassi una donna,
e subito pensavo alle stelle
e ad altri sostantivi celesti.
Ma erano tante, e così vasto il cielo,
che la mia poesia ne fu sconvolta.
 
Anch’io un tempo avevo il mio ritmo.
Facevo questo, dicevo quello.
E mi volevano bene i miei amici
e mi odiavano i miei nemici.
Io, ironicamente, glissavo
soddisfatto d’avere un mio ritmo.
Ma ho finito con lo scompigliare tutto.
Oggi non sorvolo più, no,
non sono più ironico, no,
non ho neanche più il ritmo, no.

________________

Emiliano di Cavalcanti
Senza titolo (1950)
...

AUTEUR SUIVI / AUTORE SEGUITO



Nuno Rocha Morais

Nuno Rocha Morais (Porto, 1973 – Luxemburgo, 2008) foi um poeta português. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1995.

Na cadeira do dentista


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Nuno Rocha Morais »»
 
Últimos Poemas (2009) »»
 
Italien »»
«« 81 / Sommaire (83) / 103 »»
________________


Na cadeira do dentista
Sur la chaise du dentiste


O verdadeiro espírito santo
É a anestesia, que nem sempre chega,
E, então, em cada coroa, em cada alvéolo,
É um sol de inverno que se espeta,
Uma vingança à espreita
Contra tanta culpa bacteriana.
Às vezes, os sentidos desintegram
A própria percepção – tudo zune –
Tocada num acume de dor, e os olhos
Já não são capazes, por um instante,
De recompor os fragmentos
A que teremos chamado realidade.
O cubismo foi sem dúvida inventado
Numa cadeira de dentista.
Ao cabo, é-nos estranha a orografia
Da nossa própria boca,
Como se houvera sido expulsa,
E a cavidade fosse agora ocupada
Por uma outra boca, anfractuosa,
Simultaneamente hóspede
E inóspita hospedeira
Que veda o próprio gosto.

L'esprit saint véritable est l'anesthésie,
Qui n'arrive pas toujours, et qui est alors,
Dans chaque couronne, dans chaque alvéole,
Un soleil d'hiver qui se fracasse,
Une vengeance à l'affut derrière
Beaucoup de culpabilité bactérienne.
Parfois, les sens désintègrent
La perception elle-même – tout vrombit –
Touche avec une pointe de douleur et les yeux
Ne sont plus capables, pour un instant,
De recomposer les fragments
De ce que nous appelons la réalité.
Le cubisme fut sans doute inventé
Sur une chaise de dentiste.
Finalement, elle nous est étrangère,
L’orographie de notre propre bouche,
Comme si elle avait été expulsée,
Et la cavité maintenant est occupée
Par une autre bouche, anfractueuse,
Simultanément hôte
Et hôtesse inhospitalière
Qui proscrit son propre goût.

________________

Pablo Picasso
Portrait de Ambroise Vollard (1909-1910)
...

A invenção das seis horas


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Nuno Rocha Morais »»
 
Últimos Poemas (2009) »»
 
Italien »»
«« 79 / Sommario (81) / 83 »»
________________


A invenção das seis horas
L'invention de la sixième heure


A esta hora, levantas-te de repente
Como se houvesse um sobressalto dos continentes.
A esta hora esqueces-te inteiramente
De que tens cócegas e eu começo a achar
Que os agelastas têm razão.
A esta hora, já perdemos a esperança
De ouvir as pedras ganir
E é tarde de mais para sermos de uma cordura triste.
O ar é seco e arranha como pergaminho,
O pensamento crepita de binómios,
O chá ruge e fere.
Todas as impossibilidades acorrem a esta hora
E a menor não é o teu perfume através de seda.
A esta hora, não entendemos nenhuma linguagem,
Abdicamos de qualquer mesura,
A esta hora, sabemos quão perigosa
É essa chuva incandescente que acende as cidades,
Perigosa porque se aproxima,
Perigosa porque poderíamos reconhecer,
Misturado, o próprio destino dos sonhos.
A esta hora, nunca nos conhecemos
E os nossos caminhos distorcem-se a tal ponto
Que, por este andar, não nos encontraremos nunca
E as probabilidades de não nos termos encontrado
São um fio, encerram-me numa confusão,
Num erro de memória desmantelada.
As seis horas inventam a tua ausência,
A escolha de campos, quadrantes,
A confusão entre quem parte e quem fica,
Entre o que foi e o que será.
...

À cette heure tu te lèves brusquement
Comme s'il y avait eu un sursaut de continents.
À cette heure tu oublies intérieurement
Ce qui te préoccupes et je commence à trouver
Que les agélastes ont bien raison.
À cette heure, nous avons déjà perdu tout espoir
D'entendre les pierres gémir
Et il est trop tard pour faire triste figure.
L’air est sec et craquèle comme du parchemin,
La pensée pétille de binômes,
Le thé rugit et fait mal.
Toutes les impossibilités accourent à cette heure
Et la moindre n'est pas ton parfum au travers de la soie.
A cette heure, nous ne comprenons aucune langue,
Nous avons renoncé en quelques révérences,
A cette heure, nous savons combien est dangereuse
Cette pluie incandescente qui illumine les villes,
Dangereuse parce qu'elle s'approche,
Dangereuse car nous pourrions y reconnaître,
Mélangé, le destin même des rêves.
A cette heure, nous ne nous sommes jamais connus
Et nos chemins sont à ce point déformés
Qu'à cette allure, jamais nous ne nous rencontrerons
Et la probabilité qu'à la fin nous nous perdions
est un fil qui nous encercle et rend confuse
L'erreur d'une mémoire démantelée.
La sixième heure invente ton absence,
Le recours aux champs, aux quadrants,
La confusion entre qui part et qui reste,
Entre ce qui fut et ce qui sera.
...

________________

Victor Vasarely
Vega 200 (1972)
...


Últimos Poemas (2009)

Ilustrações de Rasa Sakalaité