Présentation du blog / Presentazione del blog

« Questo blog nasce da una grande passione per la poesia e per i poeti di lingua portoghese. Qui troverete poesie e prose poetiche seguite dalla traduzione in italiano e francese ».

« Este blogue brota de uma grande paixão pela poesia e pelos poetas da língua portuguesa. Aqui vocês encontrarão poemas e prosas poéticas, acompanhados da sua tradução em italiano e francês ».

« Ce blog est né d'une grande passion pour la poésie et les poètes de langue portugaise et a pour vocation de vous les faire découvrir. Vous trouverez ici les poèmes, en vers ou en prose, de poètes de tous horizons, accompagnés de leur traduction en italien et en français ».


 ACTUALITÉS DU BLOG / NOTIZIE SUL BLOG



A minha Geração


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Cemitério Adalgisa
Cimitero Adalgisa


Moram em mim
Fundos de mares, estrelas-d'alva,
Ilhas, esqueletos de animais,
Nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morada pelas coisas como a terra das sepulturas
É habitada pelos corpos.

Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu,
Podridão, germinação,
Destruição e criação.
In me convivono
Fondali marini, stelle mattutine,
Isole, scheletri d’animali,
Nuvole che il cielo non ha accolto,
Morti ideali, perdoni, condanne,
Gesti di salvaguardia incompleta,
La voluttà del mio sesso
E l’anelito di raggiungere la perfezione.
Adolescenze spezzate, vecchiaie rimandate,
Le braccia di Abele e le gambe di Caino.
Sento che non sono io ad abitare.
Sono abitata dalle cose come la terra delle tombe
È popolata di corpi.

In me convivono
Generazioni, gioie in embrione,
Incerti pensieri di perdono.
Come nella terra delle tombe
Abita in me il frutto marcio,
Che il seme feconda rinnovando la vita
Nel ritmo sereno dell’Origine.
Vita e morte,
Terra e cielo,
Marciume, germinazione,
Distruzione e creazione.
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Ismael Nery
La baia di Botafogo (1928)
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AUTEUR SUIVI / AUTORE SEGUITO



Nuno Rocha Morais

Nuno Rocha Morais (Porto, 1973 – Luxemburgo, 2008) foi um poeta português. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses e Ingleses) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1995.

Tempestade eléctrica


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Tempestade eléctrica
Tempête électrique


No dia em que morreste, Deus
Baniu todos os aviões.
Esperei uma dor que me fulminasse,
Uma dor que soubesse ser a imagem
De assim te ter perdido, mas não:
Só um buraco, quase tranquilo,

No dia em que Deus
Baniu todos os aviões
Submetendo-os à lei grave da terra.
Não estive sequer na hora
Em que deixaste ver pela última vez,
Serena, para depois partires,
Sem olhares para trás, sem um aceno.
Terias tu vindo ao meu encontro
E, de dentro, como na minha infância,
Sustido todas as tempestades,
Dizendo-me «não tenhas medo»?

Deus baniu todos os aviões
Para que nada perturbasse
A tua última viagem?

Le jour de ta mort, Dieu
Bannit tous les avions.
Je m'attendais à une douleur fulgurante,
Une douleur que je savais être l'image
De t'avoir ainsi perdue, mais non :
Rien qu'un trou, presque tranquille,

Le jour où Dieu
Bannit tous les avions
En les soumettant à la lourde loi ²de la terre.
Je n'étais même pas à l'heure
Quand j'aurais pu te voir une dernière fois,
Serein, et que tu es parti,
sans un regard en arrière, sans un signe.
Serais-tu venu à ma rencontre
Et, de l'intérieur, comme dans mon enfance,
Aurais-tu supporté tous les orages
en me disant « n'aie pas peur » ?

Dieu a-t-il banni tous les avions
Pour que rien ne vienne troubler
Ton dernier voyage ?

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Alighiero Boetti
Avions (1989)
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Dias de fera


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Dias de fera
Jours de la bête


Os meus dias devoravam-se
Numa fúria que só podia explicar-se
Por querer-te tanto e tão de perto.
Cheguei prófugo ao pé de ti,
Os teus Verões estavam todos tomados,
E os teus desvelos.
Para mim não restava mais nada
A não ser o amor, como dizias,
Um amor clandestino algures
Nos passadiços do sangue,
Mais um rato nas nossas cloacas.
Jogávamos, pois, com baralhos marcados,
Naipes marfados, sem regras,
E de nada serve apostar constelações
Que não se podem pagar.
Não escolhi ninguém, dizias,
E havia nisto uma nobreza
De espécie desconhecida,
Uma iguaria rara para alimentar
Todas as minhas fúrias,
A sua dança diabólica nos meus dias,
Despedaçando sóis, desmembrando
Outras estrelas, de que deixavam
Ressaibos de espuma.
Não me restava sequer falar-te,
Mas eras para mim a dríade, ainda
O espírito dessa grega perdida
Num século sem graça nem ordem,
O milagre operado pelo mais propositado acaso.
Nunca me cansava de voar para ti,
Mesmo contra a deflação do céu, das noites, do mundo,
Mesmo contra demarcações corruptas,
Contra coágulos líricos
A que éramos ambos tão propensos.
Conhecer-te foi um regresso,
Uma casa que não sabia que tinha,
O dobrar de um cabo para ser acolhido
Não pela indiferença do mar,
Mas por um cintilar de praia,
De corpo estendido.
No entanto, não me restava sequer falar-te.
A minha fala era só um silvo, um urro,
Os meus dias eram de fera, e nada mais.

Mes jours se dévoraient
Avec une fureur qui ne pouvait s'expliquer
Que par un tel désir de t'avoir auprès de moi.
Je suis venu, confus vagabond, jusqu'à toi.
Tes étés étaient tous occupés,
Et aussi tes attentions.
Pour moi, il ne restait plus rien
Si ce n'est l'amour, comme tu disais,
Un amour clandestin quelque part
Sur les passerelles du sang,
Un rat de plus dans notre cloaque.
Et nous jouions alors avec des cartes marquées,
D'enragées combinaisons de couleurs, sans règles,
Or il ne sert à rien de miser sur des constellations
Qui ne peuvent être payées.
Je n'ai choisi personne, disais-tu,
Et il y avait là une noblesse
D'un genre inconnu,
Une rare gourmandise propre à nourrir
Toutes mes furies,
Sa danse diabolique sur le fil de mes jours,
Brisant les soleils, démembrant
D'autres étoiles, y laissaient
L'âcre saveur d'une écume.
Je ne pouvais pas même te parler,
Mais tu étais pour moi la dryade, toujours
L'esprit de ce Grec perdu
Dans un siècle sans grâce ni ordre,
Le miracle opéré par le hasard le plus intentionnel.
Je ne me suis jamais lassé de m'envoler vers toi,
Malgré la déflation du ciel, des nuits, du monde,
Malgré les démarcations corrompues,
En dépit des caillots lyriques
Auxquels nous étions tous les deux si enclins.
Ta rencontre était un retour,
Une maison que je possédais sans le savoir,
La flexion d'un câble, pour être accueilli
Non, par l'indifférence de la mer
Mais par le miroitement sur la plage,
D'un corps étendu.
Cependant, je ne pouvais pas même te parler.
Ma parole n'était qu'un chuintement, un rugissement,
Mes jours étaient ceux de la bête, et rien de plus.

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Tracey Emin
Je n'ai jamais demandé à tomber amoureux (2020)
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Depois do leite materno...


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Depois do leite materno...
Après le lait maternel...


Depois do leite materno
E do mosto paterno,
Dos dias plácidos,
Das urtigas e dos silvados,
Dos joelhos esfolados,
Das tareias e poluções,
As noites como livros,
O mal pelo asfalto,
As festas a que não se pertence
E o amor opressivo,
Profundamente estranho.
A terra começa a exalar
A fetidez antepassada,
O sol começa a mostrar
O seu verdadeiro rosto
De demoras e omissões,
Excessos abrasadores.
A paisagem, o betão,
Já não se vestem
De ternura alguma,
De paraíso algum.
É preciso lidar
Um fogo posto
Que recusa morrer,
Um fogo a ganhar raízes
E cada vez mais alto,
Que dura para além
Do seu combustível,
Fogo malévolo e salvífico,
Hoste a engrossar no coração
Em gotas de demónio,
Polvorosa dos anjos.
Pródigo é o filho agreste
Que não volta nunca
A esta devastação.
Só a distância lhe servirá –
Só assim poderá restar
Alguma coisa
De prédios amados,
E dos ossos de antepassados,
Do pó amado,
Último reduto da carne.
O remorso do pródigo
Reverdece tudo.

Après le lait maternel
Et le sang paternel,
Les jours tranquilles,
D'orties et de broussailles,
Les genoux écorchés,
Les bagarres et les pollutions,
Des nuits comme des livres,
Le mal sur l'asphalte,
Les fêtes où l'on est sans se trouver
Et l'amour oppressant,
Profondément étrange.
La terre commence à exhaler
La fétidité ancestrale,
Le soleil commence à montrer
Son vrai visage
D'atermoiements et d'omissions,
De brûlures excessives.
Le paysage, le béton,
ne revêtent plus désormais
Aucune tendresse,
Aucun paradis.
Il faut alors faire face
à l'incendie criminel
Qui refuse de mourir,
Le feu qui prend racine
Chaque fois plus haut,
Qui dure au-delà
De sa combustion,
Feu maléfique et salvifique,
Troupe qui enfle dans le cœur
Gouttes démoniaques,
Ce tumulte d'anges.
Prodigue et rude est le fils
Qui jamais ne revient
Sur cette dévastation.
Seule la distance lui servira –
Ainsi seulement pourra rester
Quelque chose
Des demeures aimés,
Des ossements des ancêtres,
Et des cendres aimées,
Dernier bastion de la chair.
Le remords du prodigue
Viendra tout reverdir.

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Gregorio di Cecco
Vierge de l'humilité (1423)
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Ulisses


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Ulisses
Ulysse


Sentir-te-ás velho e também isto é um regresso.
O mar começara a pesar-te nos membros,
Nos olhos, porque, como tu, o mar,
Também o mar, se acastanha de lasso,
Encolhe-se e aquieta-se para dormir.
Tudo é muito longe até para o mar.
Dentro de ti há um cão morto
E um filho perdido numa qualquer
Das muitas partidas do mundo.
Velha está também essa mulher
Que tanto te esperou e agora não te reconhece.
Desteceu-se a tal ponto a sua memória,
Que, para ela, jamais exististe.
Passaste muito, mas quem sabe não foi mais perigosa
A sua travessia de cada noite
Do que todas as tuas aventuras?
Apesar da tua famosa ciência
Colhida no pó do mundo,
Dos mil olhos das tuas astúcias,
O que sabes do exílio na tua própria casa?

Le temps où tu te sentiras vieux sera celui d'un retour.
La mer commencera à peser sur tes membres,
Car, sous tes yeux, comme toi, la mer,
La mer, elle aussi, s'embrunit dans ses volutes,
Se rétracte et se calme pour dormir.
Tout est lointain même pour la mer.
Il y a en toi un chien mort
Et un enfant perdu dans certains
De ces nombreux départs du monde.
Vieille aussi est cette femme
qui de tellement t'attendre ne te reconnait plus.
Sa mémoire s'est dénouée à tel point
Que, pour elle, jamais tu n'existas.
Tu as beaucoup vécu, mais de ses nuits, qui sait
la traversée a peut-être était plus périlleuse
Que toutes tes aventures ?
Malgré ta science fameuse
Collectée dans la poussière du monde,
Malgré les yeux par milliers de ta ruse,
Que sais-tu de l'exil dans ta propre maison ?

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Joseph Wright of Derby
Pénélope défaisant sa toile (1783-84)
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«Lundi, Rue Christine»


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«Lundi, Rue Christine»
« Lundi, rue Christine »


A madrugada começa assim, embrutecida:
Caixas registadoras nas locas de comércio,
A lenta supuração automóvel,
Uma ressaca de pessoas.
Segunda-feira, rue Christine:
Está prestes a rebentar mais uma guerra,
Ainda sem nome e sem motivo.
Por enquanto, prosseguem as operações de limpeza,
Restam apenas algumas bolsas de resistência,
Em breve o instinto pacifista se renderá.
Segunda-feira, sento-me num café da rue Christine –
Há mais uma greve, os relógios não param
De dar horas cada vez mais curtas,
De pesar almas, o meu desejo está cansado,
Também ele em breve se renderá.
Sento-me no canto de um café,
No canto de uma segunda-feira,
Porque uma dor súbita e inútil
Me interpela pelo meu nome,
Nervo inflamado, cabo eléctrico descarnado.
Foi assim que partiste, a meio do meu nome,
Com o meu nome partido ao meio,
De que só me ficou o oco
E é de dentro dele que uma voz escura se derrama,
Incrédula e com medo, incrédula e com medo.
À volta, tudo continua, a grande montra do mundo,
O comércio de vivos e mortos,
A respirar dióxidos e monóxidos
Da ilusão de que a vida continua.

L'aube ainsi commence, avec brutalité :
Caisses enregistreuses sur les lieux du commerce,
La suppuration lente des automobiles,
Une gent qui fait ressac.
Lundi, rue Christine :
Une énième guerre est sur le point d'éclater,
sans nom encore et sans raison.
Pour l'instant, les opérations de nettoyage se poursuivent,
Il ne reste plus que des poches de résistance,
L'instinct pacifiste va bientôt se rendre.
Ce lundi, je m'assois dans un café de la rue Christine –
Il y a encore une grève, les horloges n'arrêtent pas
D'indiquer des heures de plus en plus courtes,
Mon désir est fatigué du poids des âmes,
Elle aussi, va bientôt se rendre.
Je m'assois dans le coin d'un café,
Dans le coin d'un lundi,
Parce qu'une douleur subite et inutile
Par mon nom m'interpelle,
Inflammation des nerfs, câble électrique dénudé.
Tu es partie, c'est ainsi, au milieu de mon nom,
De mon nom coupé en deux,
Qui ne laisse rien qu'une partie en creux
Et à l'intérieur de celui-ci une voix sombre se répand,
Incrédule et effrayée, incrédule et effrayée.
Tout continu alentour, la grande vitrine du monde,
Le commerce des vivants et des morts,
Respirant dioxydes et monoxydes
Avec l'illusion que la vie continue.

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Caoimhghin Ó Croidheáin
Chaos climatique et pollution (Aria) (2013)
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O Pródigo


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O Pródigo
Le Prodigue


Como nunca ninguém chegava àquele país, o primeiro estranho que se enganou foi tomado pelo filho pródigo, o ungido que viria ressuscitar a terra e as pedras – todos os míticos regressos e vindas se abateram sobre ele, o pródigo, quase lhe rebentaram as veias.
Comme il ne vient jamais personne dans ce pays, le premier étranger arrivant par erreur fut pris pour le fils prodigue, le saint qui viendra pour ressusciter la terre et les pierres – toutes les arrivées et les retours mythiques s'abattirent alors sur le prodigue, lui faisant presque éclater les veines.
O pobre forasteiro tentou desenganar os desespera- dos, mas aquela gente só pedia para ser cegada, o seu desespero saturava o ar, era uma espécie de pesti- lência que o enleava, seduzia, cercava, submergia.
Le pauvre égaré essaya de démystifier les désespérés, mais cette sorte de gens ne demande qu'à être aveuglés, leur désespoir sature l'air, comme une sorte de peste qui les pousse, les séduit, les encercle, et les submerge.
Ainda assim, como recalcitrasse, foi encarcerado e torturaram-no até que aceitasse ser o pródigo.
Néanmoins, comme il était récalcitrant, il fut emprisonné et torturé jusqu'à ce qu'il accepte d'être le prodigue.
Nos desertos da fome e da sede, uma visão desceu sobre ele e investiu-o da ciência dos profetas.
Dans les déserts de la faim et de la soif, une vision descendit sur lui et l'investit de la science des prophètes.
Uns dias depois, aceitou ser o senhor absoluto daquele país. Durante cem dias, celebrou-se o regresso.
Quelques jours plus tard, il accepta d'être le seigneur absolu de ce pays. Pendant cent jours, on célébra sa venue.
Em seguida, sentaram-se todos, à espera dos milagres, mas a terra continuou a fazer ouvidos de pedra.
Ensuite, ils s’assirent tous en attendant les miracles, mais la terre continuait à faire la sourde oreille.
As mães traziam ao novo amo as filhas, para que as engravidasse, mas persistia nos ventres o mesmo vazio, a mesma secura.
Les mères conduisirent leurs filles à leur nouveau maître, afin qu'il les engrosse, mais le même vide, la même sécheresse persistait dans leur ventre.
Começaram os murmúrios, os boatos que se foram convertendo em certezas a cada nova boca. Gritou-se «traição» e a traição fez-se.
On commença à murmurer, les rumeurs d'une bouche à l'autre se convertirent, peu à peu, en certitudes. On cria le mot « Trahison » et la trahison devint réalité.
O povo marchou sobre o pródigo, lapidou-o, espe-zinhou-o e desmembrou-o.
Le peuple marcha contre le prodigue, le lapida, le piétina et le démembra.
Depois, como já tantas vezes acontecera, sentou-se, de novo à espera dele.
Puis, comme il arrive souvent, il alla s'asseoir, pour de nouveau l'attendre.
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Le Guerchin
Le retour du fils prodigue (1619)
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Hora de deitar


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Hora de deitar
L'heure du coucher


Alguns ainda dormem o sono dos justos,
Convictos de que justamente,
Há quem ainda creia em levantar-se cedo
Para surpreender o céu a separar-se da terra.
Há quem prefira deitar-se cedo
Para se habituar ao escuro do sono.
Há quem nunca se deite porque a vida é curta.
Alguns ainda dão os bons-dias e as boas-noites
Sem nunca os confundirem.
Alguns ainda acreditam que é possível ter razão.
Alguns ainda acreditam que o amor nos ama.
Alguns abraçam-se à sua fatalidade
Por verem nela a única salvação.
Ainda há aqueles que acreditam nos bem-aventurados,
Embora vituperem o joio dos felizes,
Alegando que a felicidade não é deste mundo.
Por mim, vou-me deitar.

Certains dorment encore du sommeil du juste,
Persuadés que justement,
Il y en a qui croient encore au lever-tôt
Pour surprendre le ciel se séparant de la terre.
Il y en a qui préfèrent le coucher-tôt
Pour s'habituer à l'obscurité du sommeil.
Il y a ceux qui jamais ne se couchent car la vie est courte.
D'autres encore qui disent des bonjours et des bonsoirs
Sans jamais les confondre.
Certains croient encore qu'il est possible d'avoir raison.
Certains croient encore que l'amour nous aime.
Certains embrassent leur destinée
Ne voyant de salut qu'en elle.
Il y a encore ceux qui croient aux bienheureux,
Et néanmoins vitupèrent contre l'ivraie du bonheur,
Prétendant qu'il n'est pas de ce monde.
Pour ma part, je vais me coucher.

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Endimion dormant
Copie romaine de l'original grec du II sec. avant J.C.
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De um comboio, a paisagem...


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De um comboio, a paisagem...
D'un train, le paysage...


De um comboio, a paisagem desabrida,
Quase só impressão desfocada.
Talvez não se chegue nunca a chegar,
Talvez os destinos se percam,
Dissolvidos numa espera vã,
Sujeitos às leis carnívoras de deuses
Que brincam tão carnivoramente
Como crianças, talvez a terra
Não se deixe nunca alcançar.
É nisso que pensas nesse comboio
Que não consegue avançar.
Querias ver uma última vez
Certos quadros – nocturnos, efeitos da luz
Sobre um mesmo braço de rio,
Um incêndio de esplendor em Veneza –
Enquanto o coração está aqui,
Enseada serena, e não é, não é ainda,
Chuva, vapor, velocidade.

D'un train, le paysage à tout-va
Impression débridée quasiment floue.
Peut-être n'atteindra-t-il jamais l'arrivée,
Peut-être les destinées vont-elles se perdre,
Et dans une vaine attente, se dissoudre
Sujettes aux lois carnivores des dieux
Qui jouent si carnassiers, comme
Des enfants, mais peut-être que la terre
Ne se laissera jamais atteindre.
Voici ce que tu pensais dans ce train
Qui n'arrivait pas à avancer.
Tu voulais voir une dernière fois
Certains tableaux – nocturnes, effets de lumière
Sur un même bras du fleuve,
Un incendie de splendeur à Venise –
Aussi longtemps que le cœur est là,
Crique sereine, et ce n'est pas, ce n'est pas encore,
Pluie, et vapeur, et vitesse.

________________

William Turner
Pluie, vapeur et vitesse (1844)
...

O casal perfeito


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O casal perfeito
Le couple parfait


 Para Simon Schama

As duas primas nunca se encontraram
E, no entanto, foram inimigas figadais –
Uma morta no cadafalso pela outra,
Depois de prolongadas intrigas numa era
Apaixonada por qualquer tipo de teatro.
Na hora da execução, o vermelho-mártir
Do corpete e a calma da Rainha dos Escoceses
Perturbaram dramaticamente o carrasco –
Que só ao segundo golpe lhe cortou a cabeça.
Durante alguns minutos, reza a lenda,
Os seus lábios ainda se moveram.
A Rainha dos Ingleses continuou a encenar-se,
Actriz envelhecida, velha ursa rasgada
Por mastins invisíveis, e morreu suavemente,
«Como uma maçã a cair da árvore»,
Enquanto lhe serravam do dedo
O anel que a uniu ao seu reino.
Depilava as sobrancelhas
Para nunca parecer surpreendida,
Nem sequer pelo riso da morte.
Teatral até ao fim.
Mestres do mexerico, os isabelinos
Estavam convencidos de que as duas primas
Seriam o casal perfeito.

 À Simon Schama

Les deux cousines ne se rencontrèrent jamais
Et, cependant, furent ennemies jurées –
L'une condamnée à l'échafaud par l'autre,
Après d'acharnées intrigues à une époque
Passionnée par tous les types de théâtre.
À l'heure de l'exécution, le martyr-vermeil
Du corsage et le calme de la reine des Écossais
Perturbèrent dramatiquement le bourreau –
Qui ne réussit qu'au second coup à lui couper la tête.
Durant quelques minutes, dit la légende
Ses lèvres bougèrent encore.
La reine des Anglais continua de monter sur scène,
Actrice vieillissante, vieille ourse déchiquetée
Par des mâtins invisibles, et mourut doucement,
« Comme une pomme tombée de l'arbre »,
Tandis que l'on séparait de son doigt
L'anneau qui l'unissait à son royaume.
Sourcils épilés,
Ne voulant paraître jamais surprise,
Pas même par le rire de la mort.
Théâtrale jusqu'au bout.
Les maîtres du commérage, les élisabéthains
en vinrent à se convaincre que les deux cousines
formaient un couple parfait.

________________

Kaho Mitsuki
Photo-montage des peintures de Marie Stuart et d'Elisabeth I (2008)
...

Na cadeira do dentista


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Na cadeira do dentista
Sur la chaise du dentiste


O verdadeiro espírito santo
É a anestesia, que nem sempre chega,
E, então, em cada coroa, em cada alvéolo,
É um sol de inverno que se espeta,
Uma vingança à espreita
Contra tanta culpa bacteriana.
Às vezes, os sentidos desintegram
A própria percepção – tudo zune –
Tocada num acume de dor, e os olhos
Já não são capazes, por um instante,
De recompor os fragmentos
A que teremos chamado realidade.
O cubismo foi sem dúvida inventado
Numa cadeira de dentista.
Ao cabo, é-nos estranha a orografia
Da nossa própria boca,
Como se houvera sido expulsa,
E a cavidade fosse agora ocupada
Por uma outra boca, anfractuosa,
Simultaneamente hóspede
E inóspita hospedeira
Que veda o próprio gosto.

L'esprit saint véritable est l'anesthésie,
Qui n'arrive pas toujours, et qui est alors,
Dans chaque couronne, dans chaque alvéole,
Un soleil d'hiver qui se fracasse,
Une vengeance à l'affut derrière
Beaucoup de culpabilité bactérienne.
Parfois, les sens désintègrent
La perception elle-même – tout vrombit –
Touche avec une pointe de douleur et les yeux
Ne sont plus capables, pour un instant,
De recomposer les fragments
De ce que nous appelons la réalité.
Le cubisme fut sans doute inventé
Sur une chaise de dentiste.
Finalement, elle nous est étrangère,
L’orographie de notre propre bouche,
Comme si elle avait été expulsée,
Et la cavité maintenant est occupée
Par une autre bouche, anfractueuse,
Simultanément hôte
Et hôtesse inhospitalière
Qui proscrit son propre goût.

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Pablo Picasso
Portrait de Ambroise Vollard (1909-1910)
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Últimos Poemas (2009)

Ilustrações de Rasa Sakalaité




Edições QUASI